Mais sobre a Carne Fraca. Parte 1: Considerações sobre o relatório


Por Simone Lima*


Li o relatório da Operação Carne Fraca todo, as 353 páginas. Disponibilizei aqui porque, realmente, nossa imprensa é muito fraca, ainda mais quando se trata de traduzir tecnicalidades para o público leigo. Irrito-me até não poder mais quando leio o jornalismo que vai discutir leishmaniose ou zika, por exemplo. Mas então, vamos lá, bem resumidamente, o que me chamou mais atenção.

> Não sei de onde veio a história do papelão e estou com preguiça, agora, de saber. Mas não tem nenhuma menção a papelão algum no relatório. Ou seja, parem de falar de papelão, por favor.

> O relatório faz, sim, referência - erradamente - a ácido sórbico como se fosse carcinogênico (na verdade, ele repete uma alegação de uma pessoa a respeito). Ácido sórbico é usado legalmente como conservante. 

Ah, então quer dizer que foi tudo exagero e está tudo lindo com a carne? Não, gente. Está tudo bem com a carne se ela está no corpo do ser vivo que é dono daquela carne. Mas mesmo abstraindo-se do problema de tomar a carne alheia para si, vamos ver o que é preocupante no relatório.

> O relatório mostra um esquema que foi denunciado por UM funcionário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) no Paraná, que abriu a boca após ter sido perseguido por não concordar com o esquema de subornos de fiscais por frigoríficos. Quando a polícia investiga o caso, uma coisa vai levando a outra, e o que começa como uma denúncia bem circunscrita de um pedacinho de um estado, vai ficando claro que é todo um esquema nacional de corrupção de fiscais por diversos frigoríficos, desde bem pequenos até os gigantes globais BRF (Sadia, Perdigão e diversas subsidiárias) e JBS/Friboi, maior holding mundial da indústria da carne. 

Ou seja, é simplesmente inverídico alegar que todos os frigoríficos foram inspecionados, mas só acharam problemas nesses. O que a investigação mostra é que achou MUITO mais problema em mais estados do que quando começou.

> O problema do ácido sórbico não é ele ser usado como conservante, e sim ser usado para MASCARAR que um lote de carne estava vencido.

> O problema de uso de cabeça de porco (as pessoas ficam com nojo, mas esse não é o problema legal) é que não é permitido usar em processados, a menos que isso esteja claro. É mais uma questão de fraude do consumidor.

> Há gravações de pessoas falando na maior naturalidade sobre como aproveitar, em embutidos, carne vencida há TRÊS MESES.

> O problema maior da salmonellose não é que a carne tenha chegado na Itália contaminada - ela foi devolvida. O problema são os funcionários discutindo como iriam "reutilizar", DEPOIS DE CHEGAR DE VOLTA, no porto, aqui. Cogitam usar em ração ou em embutido, daí dias depois dizem que já venderam por ali mesmo.

> São impactantes as gravações mostrando como eram afastados diversos fiscais que faziam seu trabalho de maneira séria. Tem uma sequência toda de empresários falando de uma médica veterinária que é criteriosa nos exames laboratoriais, chamando-a de "vaca, puta" etc. e discutindo tecnicamente o que fazer com os produtos para burlar os exames. 

> A BRF simplesmente mantém uma pessoa DENTRO DO MAPA, com escrivaninha, computador, login e senha do sistema para emitir certificados. Apenas.

> Uso, na produção da carne e subprodutos, de animais que já chegam no abatedouro mortos por conta do transporte: mesmo se abstraíssemos do que isso revela da crueldade no transporte desses animais, é algo que é proibido por normas sanitárias, porque desde o momento da morte já começa a decomposição, ou seja, o animal está na estrada decompondo e sua carne ainda vai ser usada horas, dias, depois para o processamento e venda.

> Algo grave que NINGUÉM parece ter reportado: a alta funcionária do Mapa "ganhou" uma passagem da BRF para a Europa para aprender sobre abate em maiores velocidades do que as permitidas no Brasil. Voltou da viagem, puf, a norma do Brasil sobre velocidade de abate permitiu abate 20% mais rápido. Sei que isso é supertécnico, mas o que ocorre é que mundialmente há uma crítica a sistemas que aumentam a velocidade de abate de frangos tanto porque uma parcela vai entrar vivo no banho que escalda (ou seja, vai ser fervido VIVO) quanto por conta de segurança do trabalhador. No relatório, estão lá correndo para não ficar na cara que uma empresa privada influenciou o Mapa a mudar uma norma.


Há outras questões que não tenho tempo de relatar, mas queria compartilhar e dizer ainda que, como alguém que é amiga de veterinários e estudantes de veterinária e alguém que estuda e acompanha as investigações de irregularidades em matadouros em todo o mundo, nada disso propriamente me surpreendeu. Na verdade, a crueldade é muito mais grave do que tudo isso. Mas é importante saber o que se come, e é importante saber que o grande compromisso dessa indústria é com seu próprio lucro. Também não é grande novidade. Mas deveria ser nosso direito saber de onde vem nossa comida. E aí usar essas informações para escolhas do que comer.

PS: Acho curioso as pessoas terem nojo de papelão, mas não de sangue, músculo, tecido. 

PS 2: Acho curioso o escândalo de acharem que tem substância carcinogênica adicionada a embutidos quando embutidos, por si só, já foram listados oficialmente por autoridades médicas mundiais como carcinógenos. Ou seja, não precisa juntar nada não, gente. Já é carcinogênico.


* Simone Lima é professora do Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento da Universidade de Brasília (UnB) e fundadora do ProAnima (artigo originalmente publicado em seu perfil no Facebook)

Imagem: arte do documentário A Carne É Fraca, do Instituto Nina Rosa


NOTA DA NATUREZA EM FORMA:

Animais não são alimento, nenhum deles. Eles não são comida nem escravos dos humanos. Sentem como todos nós e por isso merecem a vida e a liberdade. A alimentação vegetariana estrita, sem carne de qualquer tipo ou derivados (laticínios, ovos, mel), já está provada como sendo a mais saudável para os humanos. Quem opta pelo veganismo (que engloba não somente a dieta vegetariana estrita, como também o não uso de roupas e acessórios de couro, lã, pele e seda, assim como o boicote a "atrações" que exploram os animais, como zoológicos, circos e aquários, e a empresas que fazem testes em animais) está fazendo um bem pelos animais e para sua própria saúde e vida. E não é difícil nem caro. Quer uma ajuda para começar a parar de comer carne? O primeiro passo é a informação. Aprenda com quem já vive esse estilo de vida: pergunte, pesquise. Use as redes sociais para expandir seu conhecimento sobre vários assuntos, inclusive esse, que é vital para você e um imensurável número de vidas inocentes. Há diversos grupos sobre o tema no Facebook. Listamos abaixo alguns deles:


Troll Ajuda disponibiliza um tópico fixo com uma lista de produtos (não só para alimentação) livres de crueldade animal e oferece sempre diversas dicas para iniciantes e "veteranos";

Veganismo é um dos maiores grupos sobre o tema no Facebook, com quase 50 mil membros sempre compartilhando experiências e tirando dúvidas;

Veganismo Popular desmitifica a ideia de que veganismo é caro. É perfeitamente viável seguir uma alimentação diária sem crueldade animal e sem maltratar o bolso;

Musculação Vegana é voltado para os praticantes de atividades físicas. Nele, você pode ver como é preconceituosa e errada a ideia que algumas pessoas tentam propagar, de que vegetarianos estritos são fracos fisicamente (muito pelo contrário, são mais fortes e saudáveis). O grupo oferece diversas dicas de alimentação e suplementação vegana.

Existem ainda sites e blogues com deliciosas receitas veganas, simples e baratas de fazer. Estes são alguns: 




Viewganas (canal do YouTube especializado em versões veganas de receitas tradicionais com carne) 

Já a Revista dos Vegetarianos é uma publicação mensal (impressa e on-line) com excelente conteúdo que vai bem além de receitas, focando a saúde como um todo. 

Mapa Vegano lista diversos estabelecimentos em todo o Brasil, abrangendo produtos e serviços de alimentos e bebidas, higiene e beleza, roupas e acessórios, ONGs e outros. 

E para dar uma força aos iniciantes, o Mercy for Animals Brasil disponibiliza um Guia Vegetariano gratuito em seu site. Nele, você encontra diversas informações que podem norteá-lo no começo de uma nova vida. O Desafio 21 Dias Sem Carne também pode ser uma boa forma de você começar - e descobrir que consegue abolir definitivamente os animais do seu cardápio.

Mas já saiba desde o começo que abraçar o veganismo é uma mudança e tanto, que fará um imenso bem para você, para os animais e para o planeta.

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