Muito além da Carne Fraca



Por Ricardo Abramovay*

O autor de Sapiens – Uma Breve História da HumanidadeYuval Noah Harari, caracteriza a criação animal industrializada como um dos piores crimes cometidos ao longo da história humana. Claro que os animais recebem alimentos, remédios e vacinas para que não adoeçam nem se contaminem. Mas suas necessidades subjetivas são inteiramente desconsideradas. As criações industriais de aves, por exemplo, em sua maioria, não permitem sequer que elas abram as asas. Pior: como mostra Peter Singer, além de serem criadas em ambientes abarrotados e com fedor de amônia, seu crescimento é três vezes mais rápido do que nos anos 1950. Em seis semanas, estão prontas para o abate. O resultado é que um terço delas passa por dores crônicas nas duas semanas finais de vida.

Peter Singer é professor de filosofia moral e um dos mais férteis defensores do veganismo. Yuval Noah Harari é historiador, autor de imenso sucesso global, vegano, e dedica seu último livro a seu mestre budista. Não surpreende então que ambos procurem mostrar a importância da subjetividade animal e a magnitude da crueldade que marca a maneira como parte tão importante das proteínas é produzida na atualidade.

E nesse sentido, pode-se considerar como esperado o contraste entre suas posições e a do ministro Blairo Maggi, para quem o bem-estar animal** não está entre as prioridades de sua pasta, como mostra o jornalista André Trigueiro. Nada mais natural, à primeira vista, o contraste entre a ótica espiritualizada e humanista do historiador e do filósofo, em contraste com o olhar frio que marca o mundo dos negócios.

Esse contraste, porém, é menos profundo do que parece.

Desde 2015, um grupo de investidores com uma carteira de US$ 1,2 trilhão vem alertando as grandes empresas responsáveis pela oferta global de carnes que o bem-estar animal está deixando de interessar exclusivamente aos budistas, veganos, historiadores e filósofos. Ao contrário, o bem-estar animal vai se tornando um componente central do risco dos investimentos feitos no setor.

O investidor britânico Jeremy Coller lançou, há pouco mais de um ano, a Farm Animal Investment Risk and Return (FAIRR), cujos relatórios são hoje indispensáveis não só para consumidores, ativistas e estudiosos do tema, mas, sobretudo, para os investidores. Os trabalhos da FAIRR levantam dúvidas sobre a ideia de que, num mundo carente de proteínas, oferecê-las a preços cada vez mais baratos e a partir da criação animal industrializada seja uma estratégia comercial promissora.

Segundo a FAIRR, as proteínas animais respondem por nada menos que 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, mais que o setor de transportes. As criações concentracionárias ampliaram os efeitos da gripe aviária e suína que, nos Estados Unidos, em 2015, provocou prejuízo de US$ 3,3 bilhões aos investidores. Claro que isso pode ser atenuado com o uso de antibióticos. No entanto, preocupa o fato de que 80% dos antibióticos produzidos nos EUA sejam destinados às criações animais.

Ao final de março de 2017, como informa o Financial Times, um grupo de 17 grandes investidores responsáveis por ativos de US$ 2 trilhões lançaram uma campanha para limitar o uso de antibióticos nas cadeias alimentares. O temor é que esses antibióticos, amplamente usados nas criações de aves e suínos, elevem a resistência em seres humanos. O Wellcome Trust, segundo maior investidor privado em pesquisa médica, teme que, sem novos antibióticos, essas resistências provoquem a morte de milhões de pessoas.

A principal recomendação dos relatórios da FAIRR vai no sentido de alterar o próprio modelo de consumo alimentar que marca o mundo contemporâneo. Em vez de trilhar o caminho predatório das proteínas animais cada vez mais baratas, os investidores pedem ao setor que amplie a oferta de proteínas vegetais atraentes aos consumidores, menos exigentes em recursos ecossistêmicos, mais saudáveis e reduzindo assim o sofrimento animal. Os relatórios da FAIRR localizam nada menos que 28 riscos ambientais, sociais e de governança que, diante do horizonte de crescimento do setor em 8,4% ao ano até 2021, permitem-lhes falar, em clara alusão à crise financeira de 2008, que o setor está sob a ameaça de uma “bolha de proteínas”, ou seja, uma capacidade produtiva cuja realização no mercado será objeto de contestação socioambiental e, portanto, de riscos crescentes.

Claro que o Brasil também poderia se beneficiar de tal mudança estratégica. Mas seus dirigentes governamentais e empresariais precisariam se dar conta de que as demandas do século 21 serão cada vez mais pautadas por temas de natureza ética. Que a crueldade animal entre no radar dos investidores é uma excelente notícia para o Brasil, caso ele não passe a considerar que isso é manobra de interesses ocultos para enfraquecer a posição do País nos mercados mundiais.


*Ricardo Abramovay é professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP e professor titular do Departamento de Economia da FEA. Autor de Muito Além da Economia Verde e coautor de Lixo Zero: Gestão de Resíduos Sólidos para uma Sociedade mais Próspera.


Fonte: Revista Página 22

Foto: Reprodução



NOTAS DA NATUREZA EM FORMA:


1. **E o ministro da Agricultura não está preocupado nem mesmo com o "bem-estar animal". Mas frisamos que esse conceito, segundo o artigo acima, defendido por "budistas, veganos, historiadores e filósofos", não é a solução para a imensa crueldade praticada diariamente em todo o mundo contra seres inocentes e sencientes. O texto faz uma boa exposição sobre os impactos ambientais e econômicos da indústria da carne, mas, além de não citar os malefícios da proteína animal para a saúde humana, se equivoca ao sugerir que o bem-estar animal seja o objetivo buscado pelos defensores dos direitos dos animais.

Esse bem-estarismo, na verdade, é uma falácia usada justamente pela indústria da carne para ludibriar o consumidor que tem algum peso na consciência por se alimentar de animais, mas continua se alimentando assim mesmo, e fazê-lo acreditar que os animais que está comendo não foram maltratados, mas sim viveram felizes em uma linda e ensolarada fazendinha cheia de flores, correndo livres pelos campos, até chegar o momento do "abate humanitário", outra falácia me-engana-que-eu-gosto propalada pela indústria da carne, segundo a qual o animal tem uma morte "digna", "sem dor". Montes de baboseira.

Recomendamos o documentário A Carne É Fraca (cujo título inspirou o nome da Operação que recentemente deflagrou o escândalo da indústria pecuária no Brasil), do Instituto Nina Rosa, que foi todo filmado dentro de matadouros que se orgulham em dizer que praticam o "abate humanitário". Conheça esse horror e imagine como são então os abatedouros que matam de forma não humanitária. Já a postagem A realidade por trás dos ovos "livres de gaiola" derruba outro argumento bem-estarista, em relação às galinhas, inclusive mencionadas no artigo acima - clique no link e entenda.

Fazendo um paralelo com o título do artigo replicado nesta postagem, podemos dizer que a defesa pelos direitos dos animais explorados vai muito além do bem-estarismo. O que nós, da causa animal, realmente queremos e lutamos para acontecer é o abolicionismo animal, que todos vivam livres, sem dor e sofrimento, sem serem explorados de nenhuma forma, pois todos têm esse direito, não somente os humanos - ou você acha que só porque eles não falam, eles não sentem? Só porque eles não falam, os humanos são melhores do que eles e têm o direito de dominá-los e usá-los da maneira como bem entendem? 

E não, não é impossível - não é nem mesmo difícil - deixar de ser cúmplice de toda essa crueldade e parar de se alimentar de qualquer tipo de carne. Leia a próxima nota.

2. Animais não são alimento, nenhum deles. Eles não são comida nem escravos dos humanos. Sentem como todos nós e por isso merecem a vida e a liberdade. A alimentação vegetariana estrita, sem carne de qualquer tipo ou derivados (laticínios, ovos, mel), já está provada como sendo a mais saudável para os humanos. Quem opta pelo veganismo (que engloba não somente a dieta vegetariana estrita, como também o não uso de roupas e acessórios de couro, lã, pele e seda, assim como o boicote a "atrações" que exploram os animais, como zoológicos, circos e aquários, e a empresas que fazem testes em animais) está fazendo um bem pelos animais e para sua própria saúde e vida. E não é difícil nem caro. Quer uma ajuda para começar a parar de comer carne? O primeiro passo é a informação. Aprenda com quem já vive esse estilo de vida: pergunte, pesquise. Use as redes sociais para expandir seu conhecimento sobre vários assuntos, inclusive esse, que é vital para você e um imensurável número de vidas inocentes. Há diversos grupos sobre o tema no Facebook. Listamos abaixo alguns deles:

Troll Ajuda disponibiliza um tópico fixo com uma lista de produtos (não só para alimentação) livres de crueldade animal e oferece sempre diversas dicas para iniciantes e "veteranos";

Veganismo é um dos maiores grupos sobre o tema no Facebook, com quase 50 mil membros sempre compartilhando experiências e tirando dúvidas;

Veganismo Popular desmitifica a ideia de que veganismo é caro. É perfeitamente viável seguir uma alimentação diária sem crueldade animal e sem maltratar o bolso;

Musculação Vegana é voltado para os praticantes de atividades físicas. Nele, você pode ver como é preconceituosa e errada a ideia que algumas pessoas tentam propagar, de que vegetarianos estritos são fracos fisicamente (muito pelo contrário, são mais fortes e saudáveis). O grupo oferece diversas dicas de alimentação e suplementação vegana.

Existem ainda sites e blogues com deliciosas receitas veganas, simples e baratas de fazer. Estes são alguns: 




Viewganas (canal do YouTube especializado em versões veganas de receitas tradicionais com carne) 

Já a Revista dos Vegetarianos é uma publicação mensal (impressa e on-line) com excelente conteúdo que vai bem além de receitas, focando a saúde como um todo. 

Mapa Vegano lista diversos estabelecimentos em todo o Brasil, abrangendo produtos e serviços de alimentos e bebidas, higiene e beleza, roupas e acessórios, ONGs e outros. 

E para dar uma força aos iniciantes, o Mercy for Animals Brasil disponibiliza um Guia Vegetariano gratuito em seu site. Nele, você encontra diversas informações que podem norteá-lo no começo de uma nova vida. O Desafio 21 Dias Sem Carne também pode ser uma boa forma de você começar - e descobrir que consegue abolir definitivamente os animais do seu cardápio.

Mas já saiba desde o começo que abraçar o veganismo é uma mudança e tanto, que fará um imenso bem para você, para os animais e para o planeta.

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