A realidade por trás dos ovos “livres de gaiola”

Galinhas criadas "livres de gaiola" vivem amontoadas em galpões fechados
(Foto: Big Dutchman
 / Reprodução)


Diante da preocupação crescente da população com a crueldade animal, é comum a indústria da carne, dos ovos e do leite alegar um "bom tratamento" aos animais criados e abatidos. Na tentativa de tentar acalmar os ânimos, torna-se cada vez mais frequente a adoção dos rótulos "orgânico", "abate humanitário", "livre de gaiola" ou mesmo "criado solto". Porém, na prática, pode-se observar que tais medidas não poupam os animais, ao mesmo tempo em que passam uma mensagem potencialmente enganosa para o consumidor.

Ao contrário do que a propaganda de criação "humanitária" tenta passar, a condição dos animais nas fazendas industriais, quer sejam "livres de gaiolas" ou não, é infernal e cruel. Por exemplo, a gigante Big Dutchman, considerada uma das principais empresas de fabricação de equipamentos para criação de animais no Brasil e no mundo, comercializa o sistema "livre de gaiolas" (cage-free) para galinhas na indústria dos ovos.

O sistema cage-free da Big Dutchman consiste em agrupar milhares de galinhas em galpões fechados e sem acesso ao ar livre e à luz solar [1]. Naturalmente, galinhas adoram ciscar e tomar sol diariamente, mas isso é negado nesse sistema de criação "livre de gaiola".

No sistema "livre de gaiola", as galinhas não têm acesso ao ar livre e à luz do sol
(Foto: Big Dutchman / Reprodução)


O rótulo "livre de gaiola" não significa que a criação deixou de ser industrial. Dessa forma, os animais continuam a ser tratados como mercadoria e objetos, passíveis de mutilação, tortura e abate.

Mesmo no sistema industrial "livre de gaiola", as galinhas continuam a ser debicadas – um procedimento muito doloroso feito para prevenir que elas se machuquem enquanto bicam umas às outras devido ao confinamento intensivo. Os pintinhos machos são moídos vivos e os animais são abatidos para carne quando tornam-se "improdutivos".

Da mesma forma, no sistema em que os animais são alegadamente "criados soltos" (free-range), as aves são degoladas brutalmente com uma lâmina rotativa, e, devido ao processo automatizado, muitas terminam escaldadas ainda vivas.

Galinhas "criadas soltas" são escaldadas ainda vivas.
Nesse caso, são abatidas em cones de metal. Veja o vídeo
aqui


O que diz a lei?

Na Europa, no sistema "sem gaiolas", cada metro quadrado deve conter no máximo nove galinhas [2].

Nos Estados Unidos, no sistema "free-range", as galinhas devem ter acesso ao ar livre. Entretanto o governo não realiza nenhum tipo de fiscalização e também não determina quanto tempo os animais devem ter acesso ao ambiente externo [3].

No Brasil, as normas agropecuárias de produção "orgânica" não dispõem nenhuma exigência quanto à criação de galinhas "livres de gaiola" ou "criadas soltas" [4].

Efeitos práticos

Pode-se alegar que a adoção dos métodos citados acima seriam bons para os animais, representando algum tipo de "progresso". Alega-se, verdadeiramente, que algumas das medidas citadas encarecem o custo da produção, o que afetaria o preço final ao consumidor – por ficar mais caro, menos gente deixaria de comprar.

À esquerda, método convencional de gaiolas em bateria; à direita, "livres de gaiola"


Entretanto é importante notar que as alegadas medidas de "bem-estar" são adotadas pela indústria na medida em que funcionam como aumento de produção e propaganda (enganosa) para os consumidores.

A preocupação com a criação "humanitária" não é uma preocupação legítima com os animais, mas sim com o aumento de ganhos do produtor. Assim, embasada no discurso de "animal bem tratado", a população é ludibriada e passa a consumir produtos carregados de sofrimento e tortura, com a consciência tranquila.

Na prática, os ovos "livres de gaiola" não libertam os animais do ciclo contínuo de exploração a que são submetidos. Além disso, a exploração pode se dar indefinidamente. E mesmo que se coloque uma suposta "fiscalização", é no mínimo ingênuo acreditar que isso realmente impeça a tortura dos animais na indústria.

Imagine se passássemos a aceitar a vaquejada porque a queda do boi pode ser feita com um rabo artificial. É como se aceitássemos que animais de laboratório continuassem a ser testados porque recebem um suposto "bom tratamento", ou que circos explorem ursos com "carinho". Embora cada situação possua suas peculiaridades, todas refletem um paradoxo: de um lado, uma exploração "bondosa"; de outro, a real consideração dos interesses dos animais em serem livres e terem sua integridade física e mental respeitada, ou seja, a abolição completa da exploração.

Temos uma escolha muito importante a ser feita. Trata-se de optar entre a tortura constante ou determinar que não temos o direito de usar os animais como bem entendermos, quaisquer que sejam as nuances do uso.

Referências

[1] Cage-FreeColony |Big Dutchman, Acesso em 17 de outubro de 2016.


[3] USDA | MeatandPoultryLabelingTerms, Acesso em 17 de outubro de 2016.




NOTAS DA NATUREZA EM FORMA:

1. Leia também:

2. Animais não são alimento, nenhum deles. Eles não são comida nem escravos dos humanos. Sentem como todos nós e por isso merecem a vida e a liberdade. A alimentação vegetariana estrita, sem carne de qualquer tipo ou derivados (laticínios, ovos, mel), já está provada como sendo a mais saudável para os humanos. Quem opta pelo veganismo (que engloba não somente a dieta vegetariana estrita, como também o não uso de roupas e acessórios de couro, lã, pele e seda, assim como o boicote a "atrações" que exploram os animais, como zoológicos, circos e aquários, e a empresas que fazem testes em animais) está fazendo um bem pelos animais e para sua própria saúde e vida. E não é difícil nem caro. Quer uma ajuda para começar a parar de comer carne? O primeiro passo é a informação. Aprenda com quem já vive esse estilo de vida: pergunte, pesquise. Use as redes sociais para expandir seu conhecimento sobre vários assuntos, inclusive esse, que é vital para você e um imensurável número de vidas inocentes. Há diversos grupos sobre o tema no Facebook. Listamos abaixo alguns deles:

Troll Ajuda disponibiliza um tópico fixo com uma lista de produtos (não só para alimentação) livres de crueldade animal e oferece sempre diversas dicas para iniciantes e "veteranos";

Veganismo é um dos maiores grupos sobre o tema no Facebook, com quase 50 mil membros sempre compartilhando experiências e tirando dúvidas;

Veganismo Popular desmitifica a ideia de que veganismo é caro. É perfeitamente viável seguir uma alimentação diária sem crueldade animal e sem maltratar o bolso;

Musculação Vegana é voltado para os praticantes de atividades físicas. Nele, você pode ver como é preconceituosa e errada a ideia que algumas pessoas tentam propagar, de que vegetarianos estritos são fracos fisicamente (muito pelo contrário, são mais fortes e saudáveis). O grupo oferece diversas dicas de alimentação e suplementação vegana.

Existem ainda sites e blogues com deliciosas receitas veganas, simples e baratas de fazer. Estes são alguns:




Viewganas (canal do YouTube especializado em versões veganas de receitas tradicionais com carne)

Já a Revista dos Vegetarianos é uma publicação mensal (impressa e on-line) com excelente conteúdo que vai bem além de receitas, focando a saúde como um todo.

Mapa Vegano lista diversos estabelecimentos em todo o Brasil, abrangendo produtos e serviços de alimentos e bebidas, higiene e beleza, roupas e acessórios, ONGs e outros.

E para dar uma força aos iniciantes, o Mercy for Animals Brasil disponibiliza um Guia Vegetariano gratuito em seu site. Nele, você encontra diversas informações que podem norteá-lo no começo de uma nova vida. O Desafio 21 Dias Sem Carne também pode ser uma boa forma de você começar - e descobrir que consegue abolir definitivamente os animais do seu cardápio.

Mas já saiba desde o começo que abraçar o veganismo é uma mudança e tanto, que fará um imenso bem para você, para os animais e para o planeta.

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