Viewganas: uma entrevista com as youtubers veganizadoras de receitas

    Foto: Divulgação


"Comida vegana sexy, louca e deliciosa: tarefa para o Viewganas!" É assim que as paulistanas Mari Malaguetta, publicitária de 30 anos, e Bianca Barneschi, contadora (27), apresentam, desde junho, um canal de receitas diferente de tudo o que você já viu. 

O Viewganas traz versões próprias de tradicionais receitas com carne, como lasanha à bolonhesa, lula à dorê e sashimi, além de pratos do Outback e sanduíches do Subway, todos "atingidos pelo raio veganizador".

A cada quinta-feira, uma receita nova, deliciosa e sem nada de crueldade animal é publicada no YouTube. E as meninas estarão ao vivo em nosso evento do Dia Mundial dos Animais, no próximo domingo (9/10/2016)! Ao meio-dia, elas estarão no palco montado na rua General Jardim (bairro República, próximo à estação de metrô de mesmo nome, na cidade de São Paulo), entre os números 228 e 290, apresentando um de seus pratos diretamente para o público!

Antes disso, você pode conferir abaixo a conversa que tivemos com elas sobre o Viewganas, veganismo, novos projetos e como a vida é sim, perfeitamente possível (e gostosa) sem colocar nenhum animal morto no prato. Após a entrevista, colocamos a receita publicada hoje, saindo quentinha do forno (e, claro, os links para o YouTube e Facebook para que você possa segui-las)!


Natureza em Forma: Contem como o veganismo entrou em suas vidas.

Mari: Tudo aconteceu quando fiquei amiga de um casal que era vegetariano. Eles insistiram que eu tinha de assistir ao documentário Terráqueos. Aquilo ficou na minha cabeça que nem música chiclete, e vi o filme assim que cheguei em casa. Parei lá pelo minuto 15. Naquele dia, descobri que não existia só o “amor à primeira vista”, mas também o “ódio à primeira vista”. Me senti injustiçada por ter passado a vida inteira até aquele momento tendo a verdade escondida de mim. Aquilo mudou a minha vida para sempre. Decidi que não conseguiria mais conviver comigo mesma se continuasse contribuindo com aquelas atrocidades. Isso foi há muito tempo. Fui ovolacto por alguns anos e me tornei vegana junto com a Bia há quase quatro anos. Foi sincronizado, quase que um pacto [risos].

Bia: Meu primeiro contato com o vegetarianismo foi dentro de casa. Minha irmã mais nova é vegetariana há 12 anos, mas foi a Mari quem me introduziu a alguns documentários veganos, que eu nem cheguei a ver inteiros - são bem pesados e o pouco que vi já foi o suficiente, me fez enxergar toda a realidade da indústria que lucra em cima de animais. E acreditem, a indústria é cruel - por mais que as propagandas sejam bonitinhas, a realidade é completamente outra. Os animais vivem um inferno o tempo inteiro.

Sou vegana há quase quatro anos. Virei ovolacto primeiro e, em menos de dois meses, me tornei vegana.

Natureza em Forma: Como era a relação de vocês com a comida antes disso? Comiam muita carne? Quais eram seus pratos preferidos? 

Mari: Eu era a louca dos frutos do mar, da comida japonesa, e meeeu, como eu gostava de embutidos. Nunca aprendi a pilotar uma churrasqueira. Agora sou a louca dos cogumelos. Alguns comem picanha, alcatra e cordeiro. Eu como eryngui, portobello e shimeji [risos]. 

Bia: Sempre fui comilona. Eu era a típica fanática por churrasco e rodízio japonês, mas meu prato preferido era feijoada.

Hoje, continuo comendo as mesmas coisas (churrasco, comida japonesa e feijoada), mas tudo nas versões veganas. Quando ouvimos falar em veganismo, logo imaginamos que não comeremos mais nada etc., mas não perdi nada em sabor e quantidade de comida. Continuo “ogrando”, só que do lado certo.

Natureza em Forma: E como ficou a relação com amigos e parentes depois? 

Mari: As pessoas zombavam e achavam que era fogo de palha, que eu estava vivendo uma alucinação passageira. Minha mãe foi uma das grandes apoiadoras. Ela já não comia carne vermelha há muitos anos por motivos religiosos e pouco tempo depois também se tornou vegana por influência minha e da Bia. Como não levo desaforo para casa, virou minha obsessão criar pratos veganos para carnista pedir bis. Isso virou o meu joguinho interno: fazer uma comida vegana tão impressionante que ofusque todas as carnes da festa [risos]. 

Bia: No início, foi bem complicado, porque eu era a companheira de prato dos meus familiares. Fazia churrasco junto e geralmente era a pessoa que agitava saidinhas para restaurantes carnistas. Então, quando me tornei vegana, foi um choque. Ninguém levou muita fé e começaram as piadinhas. Eu me afastei deles no início e me incomodava bastante quando fritavam um bife do meu lado - na verdade, ainda me incomodo, mas tento introduzir meu ativismo fazendo comidas veganas que os impressionem.

Natureza em Forma: E sobre a cozinha? Antes de serem veganas, já gostavam de cozinhar? Já criavam receitas? 

Mari: A cozinha demorou para entrar na minha vida. Eu só queria comer a coisa mais fácil que encontrasse pela frente. Até que um dia, há seis anos, fui passar as férias na casa da minha melhor amiga, que estava fazendo intercâmbio na Irlanda. Fiquei um mês por lá. E é claro, tive que cozinhar. Um dia, no jantar, um dos moradores da casa - um estudante japonês - pediu por favor se podia repetir a minha comida. E isso aconteceu mais de uma vez naquelas férias. Comecei a acreditar que eu dava para a coisa. Aquilo se perdeu por um tempo e voltou com a força toda quando virei vegana e queria replicar os pratos que eu amava. A Bia já tinha a pegada desde pequena e agregou absurdamente na minha trajetória.

Bia: Eu cozinho desde criança, mas antes do veganismo a criatividade não era tão aflorada. Depois do veganismo, a criatividade explodiu. O desafio de transformar receitas com carnes e derivados é o que impulsiona minha vida hoje em dia.

Natureza em Forma: Como surgiu a ideia do Viewganas? Como tem sido o retorno do público? Falem um pouco sobre a produção.

Bia e Mari: Acreditamos que a comida vai muito além do prazer puro e simples, tendo um lado social muito forte - as pessoas se reúnem ao redor da mesa. E sabemos a dor de ser vegano e sentir que você não faz mais parte daquilo, aquela sensação de exclusão. E sabíamos o quanto aquelas receitas estavam fazendo a diferença em nossas vidas. Não era justo guardar só para nós. Essas veganizações à semelhança do prato original viram a estrela da festa, abrem a discussão, acabam se tornando ativismo infiltrado, implícito. 

O retorno do público tem sido muito gratificante. Vibramos com cada comentário de pessoas dizendo que conseguiram voltar a comer a mesma comida que as pessoas que elas amam, porque, ao comer, não viram diferença entre a versão vegana e a não vegana. Isso acaba unindo as pessoas novamente.

No Viewganas, desde a criação de receitas até produção, gravação, edição, fotografia, tudo, é feito somente por nós duas. Antes de começar o canal, programamos um calendário com o equivalente a um ano e meio de conteúdo pela frente. Mas as cabecinhas nunca param [risos]. Vez ou outra, dá a louca e mudamos toda a programação por causa de um momento eureca que tivemos. As gravações são feitas em um estúdio em São Paulo, capital.


    Ribs on the barbie (costela com molho barbecue) vegano (Foto: Reprodução YouTube)


Natureza em Forma: Qual a receita preferida de vocês? 

Mari: Essa é igual a perguntar qual é o filho favorito [risos]. Amo todas. Só colocamos no ar as receitas que adoramos até o último grama. Mas ok, a preferida é nossa versão para o ribs on the barbie (costela com molho barbecue), do Outback.

Bia: Casquinha de siri vegana. Com umas gotinhas de limão então, huuumm...

Natureza em Forma: Quais os planos para o canal? Existem projetos paralelos? 

Bia e Mari: Queremos que o canal se expanda por dois motivos. Um: para que os veganos já comprometidos com a causa possam ter de volta os sabores que tanto amavam. Dois: para que as pessoas que estão de fora do veganismo mudem sua perspectiva, derrubem aqueles velhos clichês de que veganismo é alface e que para ser vegano você tem de abrir mão de alguma coisa. Viewganas é para isso, para mostrar que você não precisa mudar. Você pode comer exatamente tudo o que comia antes, só que atingido pelo raio veganizador, como gostamos de falar. 

Nosso projeto paralelo é uma marca de cosméticos vegana. Estamos em fase de pré-lançamento. Podemos adiantar que o nome da marca é Starfish.

Natureza em Forma: Já que trabalhamos com adoção de animais, não podemos deixar de perguntar: vocês são tutoras de algum(ns)? Se sim, contem um pouco sobre ele(s). 

Bia e Mari: Somos tutoras de três gatas: Xuxa, Gaby e Sophia. Elas vivem na casa onde fica o estúdio do Viewganas, onde passamos a maior parte do nosso tempo. Duas delas foram encontradas em situação de abandono, sendo que uma foi vítima de violência. Somos gateiras daquelas que chegam a dormir no chão para a gata ficar mais confortável na cama [risos]. Cuidamos também do coelho Victor e do gato Léo!

      Fotos: Arquivo pessoal


Natureza em Forma: Deixem uma mensagem para o mundo!

Bia e Mari: Para ser vegano, você não precisa sacrificar nada. Veganismo não é mais só a coisa certa a se fazer, é também a coisa mais da hora a se fazer. Se você está de fora, está perdendo. Veganismo é o novo “normal”. Pode ser vegano. Pode ser muito bom.




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      Foto: Reprodução YouTube

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