Vegetarianismo na escola



Por George Guimarães*

Depois de ter enfrentado toda a família durante a gestação e a infância, é chegada a hora de mais um desafio: manter uma dieta vegetariana para o seu filho na escola. Para muitos, as questões vão muito além da alimentação vegetariana em si: os professores usam couro e penas nas aulas de trabalhos manuais? Balas e outras guloseimas nada saudáveis são utilizadas como forma de premiação ao aluno? Que tipo de histórias serão contadas na sala de aula - haverá aquelas que vangloriam caçadores e domadores de circo?

Todos esses aspectos podem ser pesquisados com antecedência conversando com professores, diretores e outros pais, mas será muito difícil encontrar a escola perfeita. Diante dessa realidade, o melhor a fazer é posicionar-se sobre como ajudar a escola em vez de simplesmente criticá-la. Algumas linhas pedagógicas já partem de um lugar melhor com relação à questão da alimentação, como a Waldorf, ligada à antroposofia, que já tem em sua filosofia muitos aspectos relacionados à alimentação integral, orgânica e saudável.

No entanto, na prática, a história pode ser diferente. Enquanto as crianças têm aulas práticas de agricultura desde cedo e apesar de a antroposofia estar diretamente ligada à agricultura biodinâmica, com um forte discurso ambiental, e os alimentos integrais serem um lugar-comum, o que predomina nas festas escolares são as bancas que vendem churrasco, com direito a linguiça e tudo mais!

Na escola dos meus filhos, que é a mais antiga do Brasil, foi apenas em 2006 que houve pela primeira vez, em sua história recente, durante o bazar de Natal que recebe milhares de pessoas em um único dia, uma banca completamente vegana, que serviu pratos à base de tapioca. Esse é apenas um exemplo simples, mas vemos que mesmo as linhas pedagógicas que, em teoria, seriam mais simpáticas ao vegetarianismo possuem incoerências, independentemente do quão belo essa pedagogia possa ser em sua totalidade teórica. Se nem as escolas mais simpáticas a um estilo de alimentação diferenciado são vegetarianas, então o que fazer em qualquer linha pedagógica que seja?

Enviar o lanche de casa é certamente o primeiro passo para cuidar da alimentação do seu filho na escola. Mas será que o seu filho será o único a levar alimentos "diferentes" para a escola? Provavelmente não, uma vez que há tantas crianças com alergias e preferências familiares específicas hoje em dia. Talvez ele não terá muitos ou sequer um colega vegetariano, mas é improvável que seja a única criança a levar um lanche diferenciado. Seja como for, ao planejar o que ele levará, inove, faça do lanche vegetariano do seu filho não o mais "diferente" de todos, mas o mais atraente de todos. Com isso, você poderá inspirar outros a também oferecerem lanches saudáveis para seus próprios filhos.

Em reuniões e festas, não leve apenas a marmita exclusiva da família. Ao contrário, aproveite a oportunidade para oferecer aos pais e professores um lanche vegetariano que seja tão criativo quanto saboroso. Vá além do pão integral com geleia e ofereça a eles torradas integrais com tahine, arroz com lentilha, tortas, quibes, vegetais ao molho de tofu com ervas, bolos de frutas... Para o lanche da criança, aquele pão mais escuro do que o dos colegas ficará mais interessante se for cortado em formato de estrela e aquelas sementes de girassol podem vir acompanhadas de um recorte de uma foto da flor de onde essas sementes vieram, o que despertará o interesse e mudará o alimento de "comida de passarinho" para "comida florida". Quando se trata de alimentos vegetais, as possibilidades de se trabalhar com formas, imagens e histórias são muitas.

Isso tudo inicia o trabalho de mudança dentro da escola por via da curiosidade. Uma vez conquistada essa fase, é necessário ir além e fornecer informações tanto para os professores e para a lanchonete da escola quanto para os outros pais e crianças. Isso pode ser feito criando ou usando as oportunidades de palestras ou simplesmente oferecendo mão de obra voluntária em eventos. Você pode ainda pedir a um especialista que analise o cardápio que está sendo oferecido atualmente. Isso te dará base para argumentar que a sua opção alimentar é uma alternativa mais saudável. Com isso, ofereça a ajuda que puder para que algumas mudanças sejam implantadas.

O que quer que você faça, faça com uma postura positiva, sendo o menos crítico possível, oferecendo soluções em vez de simplesmente apontar erros. Se for fazer uma palestra, pesquise bem o assunto antes e não queira falar tudo o que sabe sobre vegetarianismo em uma apresentação de 30 minutos. Dê uma aula que desperte o interesse da plateia sem que ela se torne defensiva, pois é somente assim que os outros se abrirão para as suas ideias. Lembre-se de que eles, a princípio, não te solicitaram nada disso e portanto vá devagar para não assustá-los. Procure na escola por aquelas pessoas que tenham ideais comuns aos seus, ainda que seja algo apenas próximo ao vegetarianismo, pois eles poderão ser seus aliados no processo de mudança que você venha a propor.

Na medida em que você se dedica a garantir não apenas a alimentação escolar adequada para o seu filho, mas também se dispõe a propor mudanças que serão positivas para a saúde de todos, tenha em mente que você estará influenciando muitas pessoas e o estará fazendo com uma grande chance de que essa mudança dure uma vida toda! Lembre-se sempre disso nos momentos de negociações difíceis com pais e professores, pois com um objetivo grandioso como esse, o trabalho não poderia ser sem dificuldades. Encare o desafio da alimentação escolar do seu filho como uma oportunidade para educar e inspirar outros e faça dessa jornada, em mais essa etapa da alimentação vegetariana do seu filho, algo leve e gratificante.


Foto: Comer para Crescer


NOTAS DA NATUREZA EM FORMA:

1. Quais as diferenças entre vegetarianos, vegetarianos estritos e veganos? Saiba aqui.

2. Acompanhe nossa série semanal sobre veganismo na infância. Clique no marcador abaixo e leia as matérias anteriores!

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