A crueldade animal por trás do entretenimento humano


Não é incomum que a relação entre humanos e animais seja pautada em hierarquias intrinsecamente ligadas à cultura e à conveniência. A fotógrafa canadense Jo-Anne McArthur passou 10 anos de sua vida se dedicando a desmascarar os bastidores da crueldade imposta aos animais em nome do entretenimento, pesquisa, moda e alimento.

E o resultado de todo esse engajamento é o livro We Animals ("Nós Animais"), recentemente lançado em castelhano, mas também disponível nos idiomas espanhol, inglês e italiano. “Sempre tive amor pelos animais, mas também sentia preocupação em relação a eles. Percebi que há animais que parecem invisíveis para a maior parte da sociedade e queria mostrá-los em um livro”, disse Jo-Anne em entrevista ao portal El Mundo.

Na publicação, a artista apresenta 100 imagens das milhares que registrou para o projeto com o mesmo nome (We Animals). O objetivo da fotógrafa é documentar as relações entre seres humanos e animais e levantar questões sobre a responsabilidade de toda a sociedade. “Ao contrário de outros grupos sociais, os animais não têm voz. Eles estão sofrendo em fazendas, laboratórios e jardins zoológicos, mas não podem se organizar e ir às ruas argumentar e exigir seus direitos. O olhar de Jo-Anne é uma forma de dar voz a eles”, explica Javier Moreno, da ONG Igualdad Animal, organização internacional em defesa dos direitos animais que será beneficiada com os lucros da venda do livro.


Em um dos relatos que acompanham as imagens, Jo-Anne conta como precisou se esgueirar para entrar em alguns locais para registrar as fotos. Em uma fazenda de macacos que visitou no Laos, ela precisou fingir ser uma compradora. O criador trouxe uma fêmea e seu bebê em uma gaiola para mostrá-los como “seus produtos”. “A maioria dessas situações ocorre a portas fechadas por uma razão: existem pessoas que seriam contra o que acontece lá”, conta a fotógrafa.

Jo-Anne diz ainda que há uma parte traumática em seu trabalho. “A pior coisa é ver animais que você não consegue salvar. Fazer contato visual com eles, sentir sua dor e ter que dar as costas e ir embora”, lamenta. Apesar da dureza de algumas situações e imagens, ela afirma que seu objetivo não é entreter, mas chamar o leitor para participar e contribuir de forma ativa na mudança dessa realidade.

A fotógrafa também decidiu utilizar textos explicativos para cada imagem como uma forma de contextualizar a origem e o porquê das fotografias. Em meio a situações de extrema crueldade e desumanidade, Jo-Anne também encontrou compaixão. Uma das cinco seções do livro é uma homenagem a todos aqueles que se dedicam a salvar animais nessas situações. “Para mostrar que também há esperança”, diz ela.


A autora espera que seu trabalho ajude a conscientizar pessoas e sensibilizar autoridades sobre a questão. “Ver essas imagens é como olhar para um espelho e perceber que todos somos cúmplices da crueldade imposta a esses animais. Os seres humanos também são animais, mas às vezes se esquecem disso”, conclui.


Fotos: Jo-Anne McArthur


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