É possível reinventar o negócio bilionário da proteína animal?


A demanda global por produtos pecuários deverá aumentar em 70% até 2050 para alimentar uma população estimada em 9,7 bilhões, prevê a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Levando em conta os impactos ambientais associados ao consumo e à produção convencional de proteína animal, dá para ter uma ideia de que a conta ambiental não vai fechar.

O mercado está atento a isso. Há poucos meses, Tom Hayes, CEO da Tyson Foods Inc., segunda maior processadora de carnes do mundo, atrás apenas da brasileira JBS, afirmou que vê a proteína de origem vegetal como uma grande parte do futuro da indústria de alimentos. Não é só discurso: a empresa possui 5% das ações da Beyond Meat, startup que ficou famosa por seus hambúrgueres vegetais “sangrentos”, e lançou um fundo de investimento focado em startups de alimentos alternativos à proteína animal.

“A proteína vegetal é a maior tendência no mercado de proteínas no momento. Empresas globais de carne estão se redefinindo como fornecedores de proteínas, e não apenas como fornecedores de proteína animal”, diz ao site da Exame Bruce Friedrich, fundador da New Crop Capital (NCC), fundo de investimento privado por trás do hambúrguer sangrento da Beyond Meat. A NCC está de olho em startups que combinem inovação tecnológica com uma forte pegada ambiental sem exploração animal.

A lista da “próxima geração de disruptores da indústria de alimentos” bancados pelo fundo inclui 14 negócios, que abrangem desde alternativas vegetais à carne e lácteos até a chamada “carne limpa”, termo cool usado para designar a proteína animal cultivada em laboratório a partir de uma microamostra de tecido, sem que nenhum animal seja abatido para isso. Exemplos de “carne limpa” são as almôndegas e os filés de frango e de pato da Memphis Meats.

Friedrich está convencido de que as carnes vegetais e a “carne limpa” estão nos estágios iniciais de uma macrotendência. E ele não está atirando no escuro. De acordo com a empresa de pesquisa Markets and Markets, a demanda por substitutos de proteína animal é projetada para chegar a 5,9 bilhões de dólares até 2022, com uma taxa de crescimento anual composta de 6,6% com base em 2016.

Um relatório da consultoria Lux Research foi além, prevendo que as proteínas vegetais representariam um terço do mercado de proteínas em 2054, crescendo rapidamente. “Isso implicaria a criação de uma indústria de US$ 70 bilhões ao ano que não existe atualmente. É uma tremenda oportunidade de mercado”, diz ele.

Uma oportunidade que desperta interesse de figuras de peso. O bilionário Bill Gates, da Microsoft, já investiu nesse mercado e o presidente-executivo da Alphabet (empresa-mãe do Google), Eric Schmidt, considera os substitutos da carne uma das mais importantes tendências tecnológicas do momento

É sobre esse mercado seminal, porém promissor, que o fundador da New Crop Capital (NCC) falou ao site da Exame.

Exame.com: A maioria dos fundos de investimento, de maneira geral, está focada em ganhar dinheiro. Qual é a força motriz da New Crop Capital?

Bruce Friedrich: Como todos os fundos de investimento, a New Crop Capital está focada em ganhar dinheiro. A indústria da carne é enorme e pretendemos transformá-la criando empresas que produzam produtos melhores. Há também um dividendo de grande impacto. As duas maiores questões em tecnologia de alimentos são as seguintes: como podemos alimentar 9,7 bilhões de pessoas em 2050? E o que fazemos em relação à mudança climática? A carne vegetal e limpa é a resposta a ambas as questões, e acreditamos que os mercados e a inovação irão impulsionar o sucesso dessas soluções.

Exame.com: É rentável investir no mercado de carne vegetal ou cultivada em laboratório atualmente?

Bruce Friedrich: Ao apoiar empresas que podem competir com os produtos de animais convencionais em torno dos fatores que realmente orientam a escolha do consumidor – gosto, preço e conveniência –, a oportunidade de investimento em carne vegetal e limpa é tão grande quanto a própria indústria de carne.

Esses novos produtos têm a capacidade de transformar fundamentalmente o mercado de carnes e a infraestrutura ineficiente que o acompanha. Se você está interessado em investir no futuro da proteína, esse é o caminho. Ao ganharem escala, esses produtos se tornarão muito mais eficientes do que a agricultura animal convencional.

Exame.com: Você poderia revelar qual é o seu nível de investimento atual?

Bruce Friedrich: A NCC investiu US$ 5 milhões no ano passado e mais US$ 1,6 milhão até agora [maio] em 2017. Estamos trabalhando para investir pelo menos US$ 5 milhões por ano. Nossos investimentos em empresas individuais variaram de US$ 50.000 a US$ 1 milhão.

Exame.com: Quais são os fatores que vocês levam em conta antes de investir em uma startup?

Bruce Friedrich: Não são diferentes dos fatores que devem ser considerados para qualquer investimento de capital de risco. Para começar, é preciso garantir uma equipe fundadora de alta qualidade, um plano de negócios excepcional e uma compreensão completa do setor de mercado que está sendo enfrentado.

Exame.com: A questão de como reduzir o sofrimento dos animais criados para alimentação humana tem ganhado força atualmente, associada a movimentos ativistas e, em grande medida, a questões de ordem moral e ética. Os mercados podem ser uma razão igualmente poderosa nesse sentido ou processos educativos são suficientes?

Bruce Friedrich: Há uma pesquisa sociológica esmagadora que prova que simplesmente educar as pessoas não é suficiente. A educação é crítica, mas estamos focados na metade negligenciada da proteção animal: o mercado.

Oitenta por cento dos norte-americanos comem fast-food pelo menos uma vez por mês, e quase metade pelo menos semanalmente (Gallup). Esses alimentos tendem a ser alguns dos produzidos de forma menos sustentável possível e mais prejudicial para a saúde pública, mas as pessoas não estão pensando sobre essas coisas quando comem nas redes de fast-food. As pessoas estão escolhendo fast-food porque é comida saborosa, barata e conveniente – as mesmas três razões que governam quase todas as opções de alimentos do consumidor.

A menos que as alternativas aos produtos convencionais sejam igualmente deliciosas, acessíveis e convenientes, a maioria das pessoas não vai mudar de hábitos. A NCC está trabalhando para tornar os alimentos mais saudáveis, humanos e sustentáveis, para que eles se tornem a escolha padrão.

Exame.com: O que é necessário para que essas mudanças ocorram e os produtos alternativos se tornem tão saborosos e competitivos quanto as opções convencionais? 

Bruce Friedrich: A indústria de carne está em um ponto de inflexão agora. Vários players importantes na indústria de alimentos perceberam que estamos nos primeiros dias de uma grande mudança, e eles estão querendo capitalizar sobre isso. A Tyson Foods, a maior produtora de carne dos Estados Unidos, acaba de investir em carne vegetal da Beyond Meat como uma maneira de começar a explorar proteínas alternativas e proteger seus negócios dos riscos materiais associados com uma excessiva dependência da agricultura industrial. Conglomerado de alimentos de vários bilhões de dólares, a Pinnacle Foods comprou a Gardein, uma empresa de proteínas vegetais, por mais de US$ 150 milhões.

Claro, esses são sinais muito bons! Desde o início, nossa esperança foi de que a indústria da carne se juntasse a nós. Quem melhor para ser pioneiro em carne vegetal e limpa do que JBS ou Tyson? Esperamos que ocorram mais investimentos, fusões, aquisições, pesquisa e desenvolvimento de proteínas sustentáveis e humanas.

A forma como o leite de soja e castanhas mudou a categoria de laticínios é impressionante. Quando as carnes à base de plantas alcançarem o mesmo estágio dos leites vegetais, isso significará quase um bilhão a menos de animais terrestres abatidos, e mais de um bilhão de animais marinhos a salvo.

Quanto ao custo, os dois maiores especialistas do mundo trabalhando nessa tecnologia – Dr. Uma Valeti, da Memphis Meats, e Dr. Mark Post, da Mosa Meats – estabeleceram o objetivo de chegar ao mercado em cinco anos e atingir a paridade de preços com os produtos convencionais em 10 anos. Mas a velocidade com que a carne limpa chega ao mercado e se torna acessível depende do apoio adequado à pesquisa e ao desenvolvimento.

Exame.com: Você acredita que a carne limpa será mainstream algum dia? O preço é hoje um fator decisivo e impeditivo…

Bruce Friedrich: Os consumidores de hoje comem carne apesar de como ela é produzida, não por causa de como ela é produzida. A carne limpa oferece uma chance de melhorar radicalmente esse processo, pagando dividendos significativos para os investidores, é claro, mas também com relação à sustentabilidade, ao meio ambiente, à saúde global e à proteção animal.

À medida que o número de empresas produtoras de carne vegetal e limpa aumenta e as empresas crescem, as economias de escala rapidamente reduzirão os custos de carnes limpas e vegetais, ambas com vantagens significativas em termos de eficiência. Elas se tornarão mais baratas do que a carne de base animal com bastante rapidez.

Exame.com: Escândalos envolvendo a indústria de carne, como o que ocorreu recentemente no Brasil, de alguma forma influenciam o mercado de proteínas vegetais? 

Bruce Friedrich: Fazendas e matadouros modernos corroeram a confiança do consumidor na questão da segurança de alimentos, bem-estar animal e escândalos de abuso de trabalhadores. Com a produção de produtos alternativos, não há nada a esconder. A carne de base vegetal e limpa terá práticas de produção transparentes. Todos valorizam a transparência e a honestidade, e isso é uma grande vantagem para as alternativas aos produtos animais.

Fonte: Exame.com

Foto: Beyond Meat / Divulgação



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