Veganismo na infância: por que meu filho é vegetariano?


Por Andrea Godoy


Vou começar meu texto com um diálogo que tive hoje com uma mãe que mora no meu prédio:

- Meu filho é vegetariano, assim como eu. Nunca comeu carne, desde que nasceu.

- Ah, então ele come só legumes?

Será que as pessoas realmente pensam que vegetarianos só comem legumes? Que dieta mais chata seria essa, hein?

A falta de informação me faz ser taxada de louca, excêntrica ou radical. Sou vegetariana há cinco anos. Parei de comer carne vermelha muito tempo antes. Parei porque, depois de muita pesquisa e leitura, descobri como o caminho para que o bifinho esteja no prato é tortuoso e cruel.

É incrível ver tanta gente cuidando de um cachorro como se fosse seu filho, mas realmente não pensando de onde vem aquele pedaço de picanha do churrasco com os amigos. No site do Instituto Nina Rosa, dá para ter uma ideia do que eu estou falando, não vem ao caso detalhar isso aqui.

Esse é meu motivo. É no que acredito. Não quero ser cúmplice dessa barbaridade e alimentar essa indústria. E também por saber que a proteína, o ferro etc., que fazem a gente acreditar desde sempre que só possam vir da carne, podem sim vir através de uma dieta vegetariana.

O Davi está com um ano e meio. Adora comer, e come bem. Come arroz integral, feijão, lentilha, tofu, quinoa, brotos, nozes, frutas, legumes, vegetais, cereais. Nunca ficou doente. Não tem anemia. É uma criança saudável e ativa.

Sou uma pessoa que não gosta muito de discutir o assunto. Acho mesmo muito difícil ter de explicar por que sou vegetariana. A maioria das vezes, quando estou em festas, simplesmente não menciono, agradeço e não como. Normalmente, já almoço antes de almoços onde sei que vai ter carne. Assim tem sido até então. Já passei por situações constrangedoras, onde me senti profundamente desrespeitada por brincadeiras de parentes ou desconhecidos.

Sei me cuidar, levo comidinhas para todos os lados e vivo bem dessa maneira. Agora, a preocupação é com o Davi. Não em relação a ele ficar desnutrido, porque dou uma dieta muito balanceada, e ele até agora não reclamou (risos). Minha preocupação é quando ele começar a frequentar lugares sem que eu esteja junto.

Na verdade, meu pensamento é dar essa alimentação para ele enquanto eu tiver todo o poder de escolha de seus alimentos, e assim que ele começar a entender como são as coisas, explicar que a carne vem dos bichinhos, e tentar fazê-lo entender. Quando ele for maior, se quiser experimentar, é claro, não vou proibir, ele poderá fazer suas escolhas, mas acredito que os que comem carne, só comem por hábito adquirido e a cultura em que vivem.

Para quem quer começar essa dieta ou ao menos está interessado em aprender sobre nutrientes, recomendo o livro Alimentação sem Carne, do Dr. Eric Slywitch. É um livro supercompleto, com vários quadros relacionando alimentos e seus nutrientes, inclusive de carnes também. Você consegue achar facilmente qual alimento possui cálcio, ferro, zinco etc. e suas quantidades. Dá para descobrir vários alimentos para os quais a gente nem dá muita importância, e que são supernutritivos, como gergelim, salsinha, orégano, sementes. É um bom guia até para quem não é vegetariano.

No aniversário do Davi, tive que convencer a moça que faria os salgados de que só queria salgados vegetarianos e assados. E até ela não queria aceitar minha decisão. Fui firme, dei a lista de recheios interessantes e só tive elogios depois da festa. Ninguém sentiu falta de carne, e me senti vitoriosa por seguir o que eu acredito. Quem vai reclamar de salgadinhos com ingredientes como tomate seco, escarola, passas, amêndoas, palmito, só coisas gostosas?

Gostaria que os hábitos do Davi continuassem os mais saudáveis possíveis - acredito estar fazendo o melhor para ele. E quando ele for para a escola, quando tiver de escolher, que saiba o que está por trás de um cachorro-quente. É gostoso, é divertido, é colorido. É, sim. Mas já pararam para ler o rótulo? Olha o que eu encontrei na internet: "A matéria-prima da salsicha é a chamada carne industrial, composta principalmente de sobras e aparas dos cortes tradicionais e de regiões pouco valorizadas de boi, frango e porco. O passo seguinte é juntar à matéria-prima doses de sal, amido de milho, temperos e conservantes (como nitrito de sódio), que dão uma coloração rosada à mistura. A receita fica então com cerca de 55% de carne e 45% de outros ingredientes. A mistura é usada para encher as tripas, que podem ser naturais (como intestinos de carneiro) ou artificiais, feitas de plástico ou celulose". Você realmente daria isso para seu filho comer? Eu, não.

Pessoas que adotam caminhos diferentes da maioria precisam acreditar muito em suas escolhas. Preciso lembrar até minha mãe, toda vez que eu a encontro, de que o Davi não come frango nem peixe. Imagina então para os outros. Não é fácil, mas é preciso estar preparado para enfrentar as situações com confiança, e realmente acreditar que está fazendo o que acha melhor para você e para seu filho.



NOTAS DA NATUREZA EM FORMA:

1. Quais as diferenças entre vegetarianos, vegetarianos estritos e veganos? Saiba aqui.

2. Acompanhe nossa série semanal sobre veganismo na infância. Clique no marcador abaixo e leia as matérias anteriores!

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