Meu filho é vegano. Qual o problema?

    
Artigo no The Guardian fala sobre as dificuldades enfrentadas por quem cria seus filhos com uma dieta vegetariana estrita.


Alimentar meu filho tem sido bem simples. Lidar com o preconceito das pessoas é que tem sido a parte difícil.

Nunca tinha conhecido nenhum vegano até que eu mesma tivesse me tornado uma, então eu era um pouco ingênua sobre como isso seria recebido por minha família e amigos. Quando comecei a contar às pessoas sobre esse novo poder em minha vida, apenas uma sobrancelha se levantou. Mas quando mencionei que meu filho de dois anos e meio se juntaria a mim na dieta vegana, foi outra história. Eu não estava preparada para a hostilidade que iria encarar.

Descobri que se você diz ter um filho vegano, imediatamente coloca sua credibilidade como mãe/pai em xeque. Fui acusada de forçar meu filho a adotar uma dieta extrema por capricho, tornando-o parte de uma desnecessária e perigosa experiência. 

Depois de um certo tempo, me tornei relutante em falar a respeito. Passei a dizer às pessoas que eu era vegana, mas que meu filho era lactovegetariano, mudança que fez toda a diferença. Soube que outros pais usavam essa tática para evitar conversas desagradáveis. Ouvi as mesmas perguntas que dirigiam a mim: e a proteína? E o ferro? E a vitamina B12? As respostas sobre mim eram bem aceitas, mas as informações sobre meu filho eram vistas com suspeitas e como potencialmente falsas. 

Reuni todos os fatos que tinha à minha disposição e tomei uma decisão e, após considerar questões de saúde, ambientais e éticas, senti que era o melhor também para meu filho. Algumas semanas depois, comecei a desconfiar que, na verdade, o problema não era meu filho estar em uma dieta não usual, mas sim ser algo não usual. Será possível que, em uma sociedade centrada no individualismo, rica em diversidade e cultura, a educação infantil precoce seja um dos últimos bastiões do apego intolerante às tradições?

Quando alimentava meu filho dentro da dieta considerada convencional, o fazia dentro das recomendações diárias de diretrizes nutricionais e pirâmide alimentar – a noção tradicional de uma dieta balanceada que inclui comidas e bebidas ricas em gordura e açúcar em sua composição. Quando mudei a dieta do meu filho, me dei conta de que antes eu seguia as regras sem pensar. 

A opção pelo veganismo me tornou consciente das pressões que eu nem sabia que estavam lá até que tivessem ido embora. Nos restaurantes, escolhíamos o menu infantil, e eu estava à mercê das persuasivas propagandas e estratégias de supermercados. O almoço antes do veganismo era um caos: meu filho cuspia, gritava e se balançava para a frente e para trás na cadeira até cair se eu insistisse em lhe oferecer brócolis. Felizmente, ele devorava algumas refeições: iscas de peixe, espaguete à bolonhesa e nuggets de frango. Oferecer uma dieta rica em carne e laticínios me convertia em uma mãe boazinha. Eu presumia que meu filho estava tendo todo o necessário, mas não me ocorria que ele pudesse estar tendo muito. Desde que ele se tornou vegano, tornei-me totalmente comprometida em fazer as melhores escolhas para ele – e, após algumas semanas de lentilhas jogadas ao chão, percebi que ele passou a limpar o prato. 

Em um mundo cheio de estatísticas alarmantes sobre a saúde de nossos filhos, as pessoas deveriam se animar a discutir alternativas à dieta convencional. Mas de acordo com minha experiência em pedir conselhos médicos sobre veganismo, é mais provável que você receba apenas uma lista de prováveis problemas e ser mandado embora. 

A despeito de toda a conversa sobre deficiências nutricionais e menores taxas de crescimento, alimentar meu filho vegano tem sido bem simples. A pior parte é lidar com desinformação e preconceito das pessoas. 

É bem comum pais veganos ouvirem onívoros censurando sua escolha em criar filhos veganos, afirmando que ela não é saudável para as crianças. O pior é que essa afirmação tem base científica: há estudos que mostram crescimento abaixo do esperado em crianças veganas. Mas não é bem assim.

As curvas convencionais de crescimento infantil geralmente levam em conta apenas bebês que recebem algum tipo de fórmula infantil. Crianças que se alimentam apenas pela amamentação (e, portanto, são vegetarianas estritas, visto que o leite é de suas mães e não de outros animais) tendem a ganhar peso mais devagar durante o primeiro ano de vida.

Foi apenas em 2006 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a primeira curva de crescimento baseada em crianças alimentadas exclusivamente por amamentação até os seis meses. A tabela é válida para crianças até os cinco anos e derrubou a hipótese de que crianças veganas não são saudáveis. 

Isso, porém, não exime você de tomar certos cuidados se optar por criar seus filhos dentro do veganismo. Crianças precisam de uma quantidade maior de calorias em relação aos adultos. Alimentos como abacate, castanhas e sementes são fontes saudáveis e concentradas de calorias. Já as frutas secas ou desidratadas, além de calóricas, são atraentes para as crianças por serem docinhas. 

As proteínas na alimentação infantil são similares às proteínas dos adultos, e são as calorias que irão ajudar o corpo a metabolizar essas proteínas para que os pequenos cresçam.

Ainda assim, recomendo que um nutricionista seja consultado em relação à suplementação de vitamina B12, que costuma ser deficiente em veganos. Alguns sites indicam marcas de vitaminas, mas não dê qualquer suplementação a seus filhos sem a orientação de um pediatra ou nutricionista. 

Criando crianças veganas

Crianças são naturalmente compassivas e amantes de animais. Igualmente natural são suas mentes curiosas e, assim sendo, elas tendem a ser receptivas e interessadas em aprender sobre o veganismo, além de gostar de compartilhar esse conhecimento com amigos, família e conhecidos.

Um dos maiores obstáculos a serem superados na criação de uma criança vegana são as críticas à sua decisão. Para os pais veganos, o radical é comer animais, mas, para a maioria das pessoas, é o contrário. É bom ter essa perspectiva em mente. 

Dicas para lidar com questões sobre como criar seu filho vegano:

- Tente manter o senso de humor, paciência e compaixão;

- Em tempos difíceis, tente lembrar como você mesmo era e suas dúvidas sobre vegetarianismo e veganismo;

- Eduque-se. Estar preparado e informado te permitirá oferecer repostas apropriadas e educadas para qualquer pergunta que ouvir. Essa preparação é especialmente importante para lidar com escola, pediatras e médicos em geral;

- Em ocasiões envolvendo comida, como festinhas, uma boa ideia é saber antecipadamente o que será servido e oferecer ao seu filho uma opção vegana para levar, para que ele não se sinta excluído. Doces, bolos, hambúrgueres, cachorros-quentes, tudo tem sua versão vegana.

Quanto a seu filho, além de educá-lo sobre o veganismo, deixe claro que você lhe oferece esse tipo de alimentação porque o ama e quer o melhor para ele.

Seu filho resolveu ser vegano. E agora?

Todo mundo viu o vídeo do menino que não queria comer o nhoque de polvo porque "o polvo é animais". Todos os veganos e vegetarianos acharam uma gracinha. E daí? E quanto à mãe que é onívora e cria um filho que se recusa a ingerir proteína animal, o que fazer? Enganar a criança e esconder proteína animal em seu prato? Ou respeitar o fato de que ela rejeita carne?

Se você é onívoro e está lendo este texto porque seu filho se tornou vegetariano ou vegano, você deu um belo primeiro passo: educar a si mesmo. Você não necessariamente precisa aderir à opção alimentar do seu filho, mas é importante que não apenas entenda e respeite a escolha, como também aprenda o que fazer para ser um vegetariano ou vegano saudável.

Há muitos sites e livros que podem te ajudar, mas nunca tome como verdade absoluta a primeira informação que encontrar. Leia, pesquise e use seu senso crítico, pois existe muita besteira escrita por aí.

Em sua pesquisa, você irá deparar com receitas vegetarianas tão boas, variadas e interessantes, que provavelmente você acabe por reduzir o consumo de proteína animal ou até mesmo também pare de ingeri-la. Mas se nem uma coisa nem outra acontecer, tudo bem também. 

Pessoas que comem proteína animal e vegetal são onívoras – assim, usar o termo 'carnívoro' para generalizar quem come proteína animal não é apropriado, pois tal palavra remete àquelas que não conseguem passar nem um dia sem carne. E são essas pessoas que vão criar a maior resistência em relação à alimentação do seu filho. Parentes, amigos, vizinhos e até mesmo pediatras despreparados irão não apenas te criticar, como dizer que você fará seu filho ficar doente. Então esteja pronto. E prepare seu filho para responder perguntas como "e as proteínas?", "mas você não vai ficar doente?" e muitas outras.

Em minha opinião, uma abordagem mais sutil pode ser melhor. Já levei uma feijoada para a casa de um amigo e só revelei que era vegana quando me pediram a receita. Eles se surpreenderam quando souberam que comeram algo vegano e gostaram. Faça o mesmo com seus amigos - e com os amigos do seu filho, quando ele for para as festinhas.

Seja positivo! Seu filho encontrará pelo caminho várias pessoas desinformadas e radicais. Ensine-o a ter orgulho de sua escolha alimentar e respostas para as inevitáveis perguntas que virão.

E, finalmente, vá para a cozinha com seu filho. Além de descobrir novos sabores, será uma ótima oportunidade de passarem o tempo juntos!


Foto: Estilo Vegan


NOTAS DA NATUREZA EM FORMA:

1. Quais as diferenças entre vegetarianos, vegetarianos estritos e veganos? Saiba aqui.

2. Acompanhe nossa série semanal sobre veganismo na infância. Clique no marcador abaixo e leia as matérias anteriores!

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