Moby: uma conversa sobre direitos dos animais

    Foto: Ken McKay


Compositor, cantor, DJ e produtor, o norte-americano Moby é também ativista vegano - se você não leu o que já publicamos sobre ele, confira as recomendações de leitura que fazemos no fim desta postagem.

Porcelain - Memórias é a primeira parte de sua autobiografia em duas partes lançada há poucos meses no Brasil. Pouco antes de anunciar o lançamento do disco These Systems Are Failing, em parceria com o The Void Pacific Choir, há algumas semanas, ele deu uma entrevista para a Rolling Stone Brasil, em que falou sobre o livro, sua carreira e direitos dos animais.

Reproduzimos abaixo os trechos referentes ao seu engajamento na causa animal.

Rolling Stone Brasil: Em uma passagem [do livro], você narra um momento em que se deu conta de que queria trabalhar pelos direitos dos animais. Logo depois, você vai para um encontro cristão, vê o cardápio todo baseado em produtos de origem animal e fica profundamente consternado pelo fato de as pessoas ali estarem supostamente pensando em um bem maior, mas deixando completamente de lado questões envolvendo o bem-estar de outros animais que não os humanos. Você ainda experimenta a raiva que sentiu naquele momento em situações semelhantes?

Moby: Sim, e por muitas razões. Especialmente quando o assunto são as pessoas que se dizem progressistas. Por exemplo: li um artigo sobre um encontro do Green Party (Partido Verde) dos Estados Unidos, e nele não houve nenhum debate sobre pecuária e a indústria da carne em geral, ou vegetarianismo, ou veganismo. Acho isso muito estranho e muito triste: o fato de tantos "progressistas", tanta gente que faz ioga, tanta gente do Partido Verde, tantos democratas ainda apoiarem a pecuária. O fato de que apoiam um processo que mata bilhões de animais e também destrói as florestas tropicais, que contribui para as mudanças climáticas, para a resistência das bactérias aos antibióticos, para a obesidade, o diabetes, doenças do coração. Faz sentido o Donald Trump amar o McDonald's, tem relação com a pessoa que ele é. Mas, para mim, não faz sentido pessoas e políticos progressistas apoiarem essa indústria que não cria nada além de destruição e sofrimento.

Rolling Stone Brasil: Há ativistas que acreditam que um dia a sociedade olhará para o modo como tratamos os animais da mesma maneira que olhamos para a escravidão. Você acredita que isso vai acontecer um dia?

Moby: Acho que se a raça humana estiver por aqui daqui a 100 anos, vai se referir à pecuária... Olha, a escravidão foi uma coisa horrenda, terrível, nojenta. Mas se falarmos do ponto de vista do meio ambiente, a criação de animais em escala industrial tem o agravante ambiental. Acho que quando as pessoas olharem para isso no futuro, não vão pensar apenas no sofrimento absurdo causado aos animais, mas também no sofrimento causado aos humanos.

Rolling Stone Brasil: Algumas pessoas tendem a acreditar que uma abordagem ao estilo de Gene Baur* é mais efetiva para fazer as pessoas pensarem sobre o sofrimento animal do que uma abordagem como a de Gary Yourofsky**. O que você acha?

Moby: Sou vegano há 28 anos e ativista pelos direitos dos animais há 30 anos, e entendo as duas abordagens. Às vezes, você quer gritar com as pessoas; às vezes, você quer mostrar a elas a foto adorável de um bezerro. Acho que o importante é ter uma estratégia flexível. Quer dizer, estamos tentando convencer as pessoas de algo. Algumas vão responder à abordagem do Gene; outras, à do Gary. Mas é praticamente um desserviço à causa usar a estratégia errada para a situação errada. Se gritar com alguém e vociferar sobre o fato de que essa pessoa não deve comer carne e essa pessoa simplesmente ficar com raiva de você, então claramente essa não é uma estratégia boa para o momento.

Rolling Stone Brasil: Mesmo hoje em dia, tem gente que tira sarro de ativistas que trabalham pelos direitos dos animais citando justificativas estúpidas, como uma suposta cadeia alimentar. Você deparou ou ainda depara com muito disso?

Moby: Sim. Quer dizer, trabalho com isso há muito tempo, então já deparei com inúmeras pessoas dizendo todo tipo de coisas sem sentido sobre o ativismo pelos animais. É frustrante, porque lá no fundo você sabe que 99% das pessoas não querem fazer mal aos animais, mas elas construíram barreiras em suas cabeças que permitem a elas, como disse a Melanie Joy, amar seus pets, mas comer outros animais [Melanie é autora do livro Por que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas]. É hipócrita e é um paradoxo, mas de algum jeito as pessoas ainda se agarram a isso. Há uma triste crença que as pessoas no mundo ocidental têm, que está matando a gente de diversas maneiras: é a crença de que se algo é legal do ponto de vista judicial, é porque é seguro. As pessoas tiram essa conclusão a respeito de substâncias, de produtos de origem animal, de tantas coisas... Elas tiram a conclusão de que se elas podem comprar algo no supermercado, o governo declarou que é seguro, então deve ser seguro mesmo. E simplesmente não é verdade. O governo trabalha para as grandes corporações, e as grandes corporações querem vender coisas baratas e tóxicas. Vendem tabaco, produtos de origem animal, remédios controlados. Mesmo as pessoas mais progressistas ainda mantêm essa filosofia ingênua de que se elas estão comprando, é porque foi testado e é seguro. Isso é a parte mais triste. Temos gente nos ridicularizando pelo ativismo em prol dos animais, mas o triste é que além de tentar salvar os animais, também estamos tentando salvar aqueles que estão nos ridicularizando.

Rolling Stone Brasil: Acredito que também há outra questão: as pessoas tendem a tentar evitar o sofrimento próprio: "Se não vejo como esses animais são tratados, minha consciência não sofre, não fico sabendo de nada e continuo comendo-os sem me questionar".

Moby: Sim. As pessoas vivem praticamente em um estado de ignorância por escolha própria, evitando qualquer coisa que possa lhes causar desconforto. Parte do nosso trabalho é apresentar a elas informações que possam fazê-las sentir desconforto, mas que poderão levá-las a fazer escolhas melhores.


*Gene Baur é escritor, ativista e fundador da ONG Farm Sanctuary, que, entre outras ações, mantém fazendas para animais resgatados da indústria nos Estados Unidos. Ao participar de programas de TV, como o Daily Show com Jon Stewart, ele busca chamar atenção para a causa de maneira conciliadora.

**Gary Yourofsky é ativista e palestrante pelos direitos dos animais. Já foi preso inúmeras vezes e causa polêmica com discursos considerados "ofensivos" ou por dizer que veganos são moralmente superiores a não veganos. Diz que a indústria envolvida em abusos de animais é responsável pelo maior holocausto já realizado.




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