Em entrevista, ex-peão defende o fim dos rodeios




Há muito tempo, defensores da causa animal lutam pelo fim do rodeio e da vaquejada. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal decidiu que vaquejadas são maus-tratos aos animais, e não esporte, em  uma votação referente à regulamentação da vaquejada no Ceará, o que supostamente abriria precedente para o mesmo acontecer em outros estados brasileiros, estendendo-se também aos rodeios.

No entanto, indo contra a decisão do STF, contra a própria Constituição Federal Brasileira, que em seu Artigo 225, parágrafo 1º, inciso VII, afirma ser dever do poder público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” e outros órgãos como Ministério Público, Associação Brasileira de Medicina Veterinária Legal (ABMVL) e Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), que atestou os maus-tratos sofridos pelos animais durante a vaquejada, além da Lei 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais), que em seu Artigo 32 define pena para quem "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos", ainda assim aqueles que lucram com essas práticas de abuso e tortura vêm lutando para sua legalização.

O PLC 24/2016, cuja ementa diz "eleva ['eleva'!!!] o rodeio, a vaquejada, bem como as respectivas expressões artístico-culturais, à condição de manifestação cultural nacional e de patrimônio cultural imaterial", está atualmente em consulta pública no site do Senado (vote CONTRA aqui). Sua votação estava marcada para ocorrer na terça-feira passada (25/10/2016), mas foi adiada.

Possivelmente ocorrerá hoje, de novembro de 2016, mas pode ser adiada novamente. Mas você pode fazer algo agora - veja em nosso Facebook. E saiba mais sobre a vaquejada no blogue Somos Contra Vaquejada.*


O ex-peão Luiz Henrique Mazza conviveu nesse meio por muito tempo, mas agora ele luta pelo fim da exploração animal em nome do entretenimento.

Abaixo, você confere a entrevista que ele concedeu ao site O Holocausto Animal.

O Holocausto Animal: Por que você resolveu desistir dos rodeios?

Luiz Henrique Mazza: Eu tinha um grande impasse com meu pai. Sou filho de pecuarista, cresci e morei na zona rural até meus 22 anos de idade. A tradição da minha família sempre foi lidar com gado, seja de corte, seja de leite. Tanto que morei no Mato Grosso por dois anos, onde meu pai engordava boi, e logo mudamos para Minas Gerais, onde ele também mexia com gado de corte. Mesmo meu pai, homem que cresceu na lida de gado, odiava rodeios, achava que já explorávamos demasiadamente os animais para a alimentação.

Meu interesse por rodeios veio na adolescência. Por volta dos 14 anos, eu montava nos bezerros da fazenda (sempre desobedecendo meu pai) e logo passei a frequentar festas pequenas e montar nas competições mirins. Sempre via maus-tratos nesses eventos pequenos - com o passar do tempo, isso passou a me incomodar. O desgosto cada vez maior do meu pai com a situação e minha mudança para São Paulo, capital, me afastaram do mundo dos rodeios. Ao distanciar-me, pude ver mais amplamente o quão bárbaro era. Logo meu pai faleceu e as responsabilidades caíram sobre meus ombros, o que finalizou minha participação no meio, até mesmo como locutor. Passei então a ver que não só as questões dos animais são problemáticas, mas também diversas outras, como machismo, homofobia etc. 

O Holocausto Animal: Peões alegam que os animais são "bem tratados" nos rodeios, recebendo "regalias" de todos os tipos. Tendo vivido nesse meio, essa informação é verdadeira?

Luiz Henrique Mazza: O que é ser bem tratado? Ração de qualidade? A alimentação que esses animais recebem é somente para seu melhor rendimento nas montarias. Touros e cavalos de rodeio possuem vida de atletas: alimento balanceado (silagem, ração e sais minerais), treinos de corrida e natação etc., mas a finalidade não é seu bem-estar, e sim o desempenho desses animais nas arenas. E o transporte? A vida nas estradas? A montaria dura segundos, mas o processo por trás dura dias. Durante a maioria das festas, esses animais ficam confinados em pequenos currais dos parques de exposições das cidades deste país. Óbvio que recebem comida e água - do contrário, não renderiam à noite.

O Holocausto Animal: Quais tipos de maus-tratos você já presenciou em rodeios?

Luiz Henrique Mazza: Lembro-me de um animal que não pulou devidamente na montaria e deitou durante os oito segundos. Nervoso por perder pontos, o peão chutou o focinho do touro, uma área extremamente sensível em bovinos. A cena me marcou muito. De resto, tem animal que é mais bravo e, ao entrar no brete, dá trabalho, sendo alvo de choques. Tem peão que aperta muito a corda americana (sedém) para deixar o animal respirando menos. São tantas coisas…

O Holocausto Animal: Em 2011, um bezerro teve que ser sacrificado após ficar tetraplégico na prova bulldogging, em Barretos (SP). Foi um caso isolado?

Luiz Henrique Mazza: Se procurarmos na internet, vemos inúmeras fotos de animais cortados por espora - uma delas mostra uma égua que teve parte de seu intestino exposto durante uma prova. Lembro-me de um touro de um boiadeiro da região de Bragança Paulista, que, ao descer do caminhão, por conta de seu peso enorme (touros de rodeio geralmente são animais muito pesados, uma média de 700 kg), escorregou com as patas traseiras, abrindo-as. O animal teve ligamentos rompidos, fraturas no fêmur e precisou ser sacrificado. Esse touro era tão pesado (33 arrobas, quase uma tonelada de peso vivo), que precisou de um guindaste para levantá-lo em cima de um caminhão e levá-lo ao abatedouro.

O Holocausto Animal:PLC 24/2016, do deputado Capitão Augusto, defende que o rodeio seja considerado "patrimônio cultural imaterial do Brasil". Você concorda?

Luiz Henrique Mazza: Nunca. Eu que fui criado no meio rural, sou violeiro, estudei a fundo as raízes da cultura caipira brasileira, acho uma piada esse projeto de lei. Como disse, meu pai foi boiadeiro "dos antigos". O rodeio nasceu do circo de montarias, uma competição entre os peões para ver quem lidava com os animais mais chucros. Eram geralmente montarias em potros e burros brabos, mas com a globalização e a importação dos moldes do rodeio norte-americano, quase nada resta disso. De todas as modalidades praticadas oficialmente no rodeio brasileiro, somente a montaria em cutiano é nacional, o resto é tudo importado. Os trajes, os termos, os equipamentos, tudo importado dos EUA. Existem fragmentos culturais, sim, claro, como comidas típicas, a viola propriamente dita, literatura etc. Mas o rodeio, não. Esses fragmentos imateriais não dependem do rodeio e sequer são promovidos por ele.

Essa americanização do meio rural brasileiro não promove nada, ou alguém já ouviu algum caipira falar "I’m the best bullrider in the fuck world"? Agora, com o advento do sertanejo universitário e a massificação do rodeio pós-novela América, só intensificou-se como cultura de massa, e não cultura popular. Que tombemos as receitas, as músicas, a literatura e até o modo como o caipira picava o fumo e enrolava seu cigarro de palha (tem uma técnica séria pra isso), mas o rodeio? Não, obrigado.

O Holocausto Animal: O rodeio movimenta bilhões de reais todos os anos. Você acredita que um evento que possui um imperativo econômico tão forte será proibido?

Luiz Henrique Mazza: A destruição da Amazônia também movimenta bilhões, é extremamente prejudicial e vai de vento em popa (e ela está diretamente ligada à produção agropecuária). Enquanto tivermos um poder legislativo ruralista, creio que essa realidade não mude, principalmente onde o lucro vira justificativa para qualquer coisa. Exploramos seres humanos para obter lucro, mesmo que, psicologicamente falando, era para ser mais fácil sentir empatia - o que dirá da exploração animal? (Fique claro que odeio especismo, mesmo que essa frase tenha soado assim.) O capital é o mal do mundo.

O Holocausto Animal: Se você pudesse dizer algo aos peões que participam das provas, o que diria?

Luiz Henrique Mazza: Vocês não precisam disso para defender sua cultura. Há inúmeros meios de promover manifestações culturais - não somos contra as festas, só queremos que os animais deixem de fazer parte delas. Vocês ainda terão as músicas, as comidas, as roupas, a cachaça (que é uma coisa muito boa, por sinal), só deixem os animais em paz.

Fonte: O Holocausto Animal 


* ATUALIZAÇÃO (em 1º de novembro de 2016) 


Aprovado em comissão do Senado, projeto a favor da vaquejada segue para o plenário. Leia aqui.

Mas nossa luta não acabou. Leia, assine e compartilhe a petição de repúdio aos rodeios e vaquejadas. Clique aqui.

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